sábado, 8 de setembro de 2012

Receita de Ano Novo – Carlos Drummond de Andrade


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Carta para um amigo.

  De tantas provações que a gente é forçado a passar na vida, a mais terrível delas é a perda de alguém.
  Hoje venho aqui, não pra fazer mais uma homenagem. Okay, talvez sim. Mas também para externar tudo o que vem passando pela minha cabeça desde a segunda-feira, quando eu fiquei sabendo de algo que abalou um pouco o mundo de todos nós.

Meu amigo:

  Eu acordei em uma manhã gelada e chuvosa de uma segunda-feira, nada animada para ir em uma aula nada produtiva. A escola não tem mais tanta graça desde que eu comecei a amadurecer. E eu não tenho mais ninguém que me faça ver a graça de novo.
  Mas voltemos a manhã gelada e chuvosa: um dia que, desde o começo, se sabe que será totalmente sem graça. Acho que senti algo diferente, porque fiz uma coisa atípica: entrei na van e rezei. Um Pai Nosso, um Credo, duas Ave Marias (a mãezinha sempre merece mais). Pedi proteção, e que o dia fosse bom. E dormi novamente (afinal, a gente vai dormir sempre tarde nos domingos).
  Fui acordada pelo Gustavo, me perguntando se poderia me dar uma notícia ruim. Eu disse que podia, pensando em uma possível falta à escola, por parte dele, naquele dia. E as coisas se desenrolaram de um jeito que eu já tinha visto muitas vezes... "Sabe o Michel?" "..." "Sei sim. Que que aconteceu?" "pois é... disseram que ele reagiu a um assalto...".
  Pensei em tantas coisas aquela hora. Jurei que era brincadeira, cheguei a pensar que tu tava no hospital... Mas a notícia era a de que tu tinha falecido.
  Eu ainda choro. Talvez seja fraqueza. Talvez seja o término de algo muito bom, e que eu jurava que ia durar mais. Poxa, cara! Tu ia ser o tio loucão das minhas crianças! A gente ia ter muita história pra contar!
  Eu tive raiva. Primeiro de ti (pô, Michel! Que que tu tava fazendo?!), depois dos caras que fizeram isso contigo, e depois do mundo.
  Fui pra escola tendo pequenos ataques de choro e angústia a cada 20 minutos, intercalados com momentos de calmaria em que eu me perguntava se tinha algo que eu poderia fazer por aqueles que eram mais próximos de ti do que eu. Depois eu lembrava de tudo, e as lágrimas me vinham novamente.
  Tu tem noção de quantas vezes tu foi uma mola pra mim? De quantas vezes tu me animou só de conversar comigo, seja filosofando (eu sei como tu filosofava), seja falando besteria (idem ao anterior), tu levantava o astral de um jeito que só tu conseguia.
  Mas enfim... fomos ao velório. Chegamos cedo. No caminho, relembramos tuas piadas de humor negro (sem bracinho, sem docinho!) e não podíamos não rir. Esperamos até tua chegada (tua? Será que era mesmo tu ali?) e da tua família.
  Não posso deixar de te falar o quanto tu tinha uma cabeça brilhante e um coração de ouro. Tu era incrível, e não, essa não é uma das vezes que falamos bem de alguma pessoa só porque ela morreu. Nós vivíamos dizendo isso: TU É FODA! Só não sei se dizemos pra ti.
  Foi terrível me despedir de ti. Foi terrível tentar confortar tua mãe quando em mim já tava doendo tanto. Foi terrível ver tanta gente ali reunida por um motivo tão bizarro. O Michel morrendo? Não é possível. O cara era indestrutível!
Engenharia Eletrônica, então? Não sabia disso. Aliás, acho que ninguém sabia disso. Engenharia, Michel? Eletrônica, de novo? Eu teria rido da tua cara. E tu também teria rido, pelo mesmo motivo.
  Tu não tem noção, cara, do quanto eu te considero, e do quanto eu te adoro. A gente sofre em silêncio, quando a nossa vontade é de quebrar a cara de um filho da puta desses que faz isso com alguém que, tenho certeza, é insubstituível.
  Já perdi muita gente. Mas dessa vez eu me peguei torcendo pra tu vir puxar meu pé à noite. Assim, quem sabe, eu possa falar contigo de novo.
  Estou escrevendo na esperança de que, de algum lugar, alguma hora dessas, quando te sobrar um tempinho (afinal, o paraíso deve ser muito bacana, mesmo) leia, e lembre de mim, porque eu sei que tu significava mais pra mim do que eu pra ti. Aliás, com todo mundo deveria ser assim.
  Era isso que eu tinha pra dizer de ti. Um cara especial, de excelência.
  Enfim. Espero que tu encontre muitas vaginas perfeitas por aí, porque, afinal "É nesses momentos que tu sente que o teu pau tem valor".
  E te lembra aquela vez na praça? Tudo bem que eu tava bêbada, mas se eu disse que tu ia estar na minha biografia, é porque tu vai estar. E vai mesmo.
  Adeus, Michel. Agora eu sinto que "a ficha caiu" mesmo.
  Tua curta vida valeu mais e foi mais proveitosa que a de muita gente que chega aos 100, por aí.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Com carinho

     De vez em quando, a vida e escolhas me levam a ter um olhar diferente sobre as coisas. Isso acaba por me deixar meio deprimida, mas é um bom exercício de amadurecimento.
    Me utilizando da metáfora da rã no tacho de leite, quem se deixa vencer pelas dificuldades simplesmente afunda. Aquele que luta, porém, de tanto se debater transforma o leite em manteiga, consegue sair fácilmente.
     Às vezes desistimos por coisas tão insignificantes, dificuldades bobas que se tornam um grande iceberg em nossa frente. Somos, a grande maioria de nós, raça humana, fúteis. Reclamamos "de barriga cheia". Nosso maior passatempo é reclamar. Atitudes para mudar, porém, raramente são tomadas...
     Esse fim de semana conheci uma pessoa maravilhosa. É por ela que estou aqui, agora, escrevendo isso (no meio de uma aula, antes que minha memória e inspiração falhem). Uma mulher guerreira, se debatendo no "tacho da vida".
     Filha de uma família de doze irmãos, ela luta contra cânceres (sim, no plural) desde os 35 anos. Venceu três, já. Faz hemodialise a tanto tempo que seu braço, no lugar onde são colocadas as agulhas, apresenta um grande inchaço, um "caroço" de tantas agressões da vida.
     Já fez diversas cirurgias, retirou tireóide. Tem agora uma perna mais curta que a outra, por conta de um "consumo de cálcio" excessivo do organismo. A bexiga diminuiu depois das tantas radioterapias intensivas que fez. Hoje, está esperando uma cirurgia de transplante de rim.
     É a esse indivíduo que dedico o texto de hoje. Melhoras, dona Vânia. O leite já está quase virando manteiga.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Só mais um pensamento saindo por aí


   Os pensamentos não falados explodem dentro da cabeça, confundem todos os sentidos e saberes, agoniam a lucidez. 
   Exteriorizar o que pensamos não é um meio somente de mostrar os fatos às outras pessoas, mas sim de mostra-los a nós mesmos. Pensamentos limpos, brancos no preto, ou pretos no branco.
    Será por esse motivo que queremos tanto ter alguém ao nosso lado, que escute até mesmo o que não faz sentido nem para nós? Alguém de quem gostamos e que nos entenda, para que possa saber entender os nossos pensamentos. 

Faz sentido?


   É difícil estar feliz. Essa afirmação parece estranha. Você, certamente, pensará: “Claro que não! É ótimo estar feliz. Todos procuram e querem isso, a felicidade é o que há de mais maravilhoso!” e também diriam que “O difícil é encontrar a felicidade”. Eu discordo. Encontrar a felicidade não é nada comparado a manter essa felicidade. Precisamos estar sempre em movimento, sempre buscando algo, perseguindo sonhos. Que Aristóteles me perdoe, mas é verdadeiramente esta a finalidade do ser humano: perseguir sonhos. Não realiza-los, perseguí-los. Se não estamos em busca de um objetivo, a vida não tem sentido, mesmo que tenhamos tudo nas mãos, que sejamos “felizes”.
   Se um indivíduo tem tudo que precisa para sua felicidade _e, peço desculpa agora a maioria dos poetas, (inclusive a mim, que em minhas obras defendo esse ponto de vista) mas a felicidade não está somente nas coisas simples. Não é fácil encontra-la coisíssima nenhuma, não basta olhar de um “ângulo diferente”_ ele estará constantemente procurando objetivos, olhando por coisas que ainda não tenha, e “colocando defeitos” nas que tem.
   Assim como aquele que está feliz com alguém e, inconscientemente, começa a ser a pessoa mais chata do mundo para esse alguém. Irrita, contesta tudo o que vê. Enfim, é um parceiro ruim. Não quer dizer que ele não ame essa pessoa. Só que está muito feliz. É como uma “auto-sabotagem” que fazemos sem querer. Depois da briga, depois da “DR”, das lágrimas e xingamentos, tudo volta a ser um mar de rosas. É só pra não criar limo. Pra não acostumar a ter tudo fácil. Isso é felicidade.
   Faz sentido?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O Lago

Todos os anos se vão com o vento
abra a porta
está aí, querido?
Voltei a ser sonâmbula,
voltei a ver os meus fantasmas.

As curvas que vejo agora,
a semi-escuridão
e a neve lá fora, intacta.
Onde estão meus livros?

Queria que soubesse que te amo
se soubesse amar, seria tudo por você.
E por que só eu vejo beleza
nas anti-rimas que deslizam meu papel?

Abra a porta, querido
não ligue para a minha pele
ela apodrece por você
e pelo lago, que desde aquele dia é minha casa.
Está aí querido? Me vê aqui, estendida por você?

Te chamo, podes me ouvir?
Ou a morte nos separa, como essa casa nos une?

Se eu soubesse amar
seria tudo por você.


Lendo: "O Iluminado- Stephen King"

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Caro residente

Queria que soubesse,
caro residente,
que sinto por quebrar tantas vezes seu bem mais precioso.
Se soubesse como amar, teria feito tudo diferente.

Você costumava ser meu melhor amigo,
e se te magoei tanto assim,
foi porque você deixou que assim eu o fizesse.

Deixe, amigo meu, esse seu estilo livre voar
aceite meu parnasianismo, enquanto aceito esse seu romantismo incurável.
Me aceite.
E acredite que tudo o que fiz, foi por não saber como fazer de modo diferente.

E, enfim, me perdoe, por ser nada mais que eu mesma.