Esperava a procissão acabar para puxar o sino da igreja, e avisar a todos os fiéis que a Missa iria começar. Era um domingo especial, dia de um Santo especial e um dia muito quente. Eu parada suava, e entendia as pessoas que decidiram não vir a essa festa religiosa, e ficar na fresquidão de suas próprias casas, no conforto de suas camas. Eu mesma queria continuar lá.
E estava, contudo, parada debaixo do sol, mirando a esquina para, assim que avistar as pessoas, fazer soar o chamado ao bairro inteiro, juntamente com os fogos de artifício que os homens iriam queimar em frente à igreja.
A procissão estava longe de acabar, mas eu continuava em pé, aguardando pacientemente. Mas, olhando para a esquina contrária, me pego observando uma pessoa em especial, me distraindo da minha função. Era alguém em uma cadeira de rodas, levando um vaso de flores no colo. E as flores eram tantas e tão grandes, que cobriam o rosto dessa pessoa por completo. Atrás, empurrando a cadeira, vinha uma senhora ofegante, o suor lhe derramava sobre o rosto e ela se esforçava para levar a acadeira até a igreja. Naquele momento, percebi quem vinha coberta de flores. Dona Vânia, sobre quem já falei aqui (http://www.ospirulitosacabaram.blogspot.com.br/2012/08/com-carinho.html). A rã no tacho de leite.
A poucos dias, essa senhora havia quebrado a bacia. Além de todos os seus problemas, ela tinha que aguentar mais uma dor, e não poderia mais fazer o transplante, tendo que piorar o estado de seus braços, por continuar a fazer transfusão. Ela era, de todos os fiéis que frequentavam a missa (e, por seu estado, nós não tínhamos mais a visto) a que mais tinha o direito, e até dever, de se poupar do calor e esforço e ficar em casa, se cuidando. Mas ela vinha, lutando contra a dor que sentia, e que se estampava em seu rosto, e sempre auxiliada pela irmã, trazer as flores ao Santo a quem ela tanto orava.
Quando ela chegou, nós logo tratamos de pegar a cadeira de rodas e dar uma "folga" a sua irmã, também uma senhora já meio frágil. Assim que me viu, disse-me "Manda alguém lá na minha casa, porque eu fiz uns pudins para dar à festa, mas não pude trazer por causa da cadeira!".
Posso dizer que lutei contra minhas lágrimas, e que tive certeza de que a fé realmente move e dá forças ao ser humano.
Sei que nem todas as pessoas que leem o que escrevo, acreditam em algo superior, ou em Deus, propriamente. Mas gostaria de fazer um pedido: Jamais tirem a fé de alguém. Jamais façam uma pessoa duvidar daquilo em que ela acredita. É o maior tesouro e esperança que essa pessoa pode ter, e, assim como a Dona Vânia, pode ser o que a mantem viva até agora.
Também nesse dia recebi notícias terríveis: uma prima no hospital, perdendo os movimentos e forças do corpo de maneira gradual e com esse problema sendo ainda um mistério, surgido do nada. E um amigo muito querido com leucemia, também no hospital, em coma.
Problemas que vêm como surpresas, terríveis e tristes surpresas. E nesses momentos, quando eu não posso fazer nada por eles (nem doar meu sangue eu não posso mais) é que eu mais rezo. São as horas em que minha fé tem mais "serventia". Pois, é como dizem: "Rezar não é pensar demais, e sim amar demais".
Aproveito aqui a história da Dona Vânia para pedir orações e pensamentos bons aos meus amigos e prima que se encontram com essas provações no meio de suas vidas.
Continuem a nadar, amigos. Pulem. O leite vai virar manteiga.
E eu estou aqui torcendo, e orando, de coração.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Caro jovem
Levante desse sofá. Desliga esse computador (mas só depois
que terminar de ler). Fecha o e-mail e o Facebook, ninguém vai te solicitar hoje, por esse
segundo.
Se tens saúde e vitalidade agora, você sabe que não terá
para sempre. Saia da frente do computador, e vá correr. Se estiver chovendo,
dance e sinta a água te molhar por inteiro. Se estiver frio, abrace e sinta o
amor quente dos outros. Sinta. Porque sua vida não se estenderá por todos os
anos da humanidade. Você precisa correr. Faça seu coração acelerar e pare para
ouvir o ritmo que bombeia vida através das suas veias. Agradeça por ter tudo
isso, e por sempre ter tido a sorte de continuar com a cabeça erguida.
Se desmoronou, lembre-se que nós caímos mil vezes durante
nossa construção. Dê valor ao seu caráter e a todos e tudo que o formaram.
E comece a pensar em sua vida. O que você quer fazer com
ela?
Daqui a dez anos, você pode estar passeando de bicicleta
pela orla de uma lagoa. A vida passou e você já percebeu que nem tudo que vale
a pena pode ser feito através de uma tela high-tec . Suas vitórias estão
listadas em uma folha de papel. Nenhuma delas é uma pessoa, ainda. Mas vives
tranquilo (a) e feliz, do jeito que sempre planejou e continua construindo sua
vida.
Ou você pode estar na cabeceira de uma mesa, olhando sua
família reunida em torno dela e dando graças a Deus por ter achado as pessoas
que perpetuariam sua vida e que a tornariam prazerosa a cada passo dado. Suas
conquistas podem se resumir em pessoas, ninguém liga. Pode também se resumir em
alcances, em empregos. O importante é que você tenha a vida que sempre quis, ou
que descobriu tarde demais que queria.
Também pode ser que você já tenha viajado o mundo, falado várias línguas e lido muitos livros. Pode ser que sua vida se passe dentro de um escritório e tenha sucesso no que faz. Ou você pode passar os fins de semana na praia e se divertindo do jeito que você quiser.
Mas não perca tempo com aquilo que não te faz feliz, e com aquilo que não te faz crescer. Trabalhe para você e para mais ninguém. Mas comece a trabalhar.
Comece a trabalhar para aquilo que quer! Use suas
ferramentas da melhor forma. Se você tem acesso à rede mundial de computadores,
então use sua voz para dizer aquilo que está errado e aquilo que está certo. Aprenda...
Mude o mundo. Mas, primeiro, mude você.
Vamos nos humanizar antes de melhorar as máquinas que temos.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Acúmulo de culpas
Estou novamente em casa, com meus momentos de ócio, e não fui te visitar - de novo.
Penso sempre: "Porque ela não vem aqui?" Tentando amenizar minha culpa que, agora, transborda e pesa nos meus ombros. Sou uma acumuladora.
Acumulo amizades, dores, culpas, anseios, sonhos impossíveis e que eu nem quero, realmente, mais. Meu ser é lotado de coisas velhas e que eu já deveria ter jogado fora. Promessas não cumpridas impedem que minhas gavetas se fechem, e sobre cada móvel há pilhas de pessoas quase esquecidas, mas que eu não quero esquecer. Elas já me esqueceram, claro, mas todas aquelas culpas sobre as quais eu acidentalmente piso enquanto caminho - pois se atiram pelo meu chão - não deixam minha memória ser ruim.
As minhas dores estão bem escondidas pelos cantos, para que ninguém que se atreva a olhar mais de perto consiga achá-las, e entre todas aquelas flores secas no meio de todos os livros já lidos, estão aqueles sonhos antigos, que eu nem quero mais, mas que (como roupas velhas) não me desfaço por medo de nunca mais conseguir olhar para trás; nunca mais poder voltar à minha forma antiga.
E ali, escondida, está você. Aliás, escondida não! Ainda lembro tanto e tantas vezes daquela visita prometida, que você só pode estar sentada espaçosamente sobre meu sofá, assoviando e batendo palmas para atrair minha atenção a cada vez que passo. Me sinto uma assassina, como se tivesse te matado no meu cotidiano, mesmo você ainda estando tão viva no meu íntimo. Mas a verdade é que nós duas mudamos, e que não faríamos mais tanto bem uma à outra.
A coisa toda é que eu não quero mais ser uma acumuladora. Preciso jogar fora o que pesa dentro de mim. E se isso implicar te jogar, jogar nossa amizade, no lixo, assim será. Tudo para poder caminhar mais leve e seguir em frente na escalada. É o que irei fazer: jogar fora todo o peso inútil.
Me entenda, cara velha amiga. Vamos seguir em frente e esquecer aquela promessa de nunca mais nos separar. Não aguento mais todos os teus quilos emocionais, e não gosto de pensar que você pode estar me esperando. Foi ótimo enquanto foi, mas te carregar seria como guardar papel de bombom na agenda, só pra lembrar como o dia foi lindo.
E eu não preciso desse tipo de lembrete. Eu sempre vou lembrar, mas só quando eu quiser.
Penso sempre: "Porque ela não vem aqui?" Tentando amenizar minha culpa que, agora, transborda e pesa nos meus ombros. Sou uma acumuladora.
Acumulo amizades, dores, culpas, anseios, sonhos impossíveis e que eu nem quero, realmente, mais. Meu ser é lotado de coisas velhas e que eu já deveria ter jogado fora. Promessas não cumpridas impedem que minhas gavetas se fechem, e sobre cada móvel há pilhas de pessoas quase esquecidas, mas que eu não quero esquecer. Elas já me esqueceram, claro, mas todas aquelas culpas sobre as quais eu acidentalmente piso enquanto caminho - pois se atiram pelo meu chão - não deixam minha memória ser ruim.
As minhas dores estão bem escondidas pelos cantos, para que ninguém que se atreva a olhar mais de perto consiga achá-las, e entre todas aquelas flores secas no meio de todos os livros já lidos, estão aqueles sonhos antigos, que eu nem quero mais, mas que (como roupas velhas) não me desfaço por medo de nunca mais conseguir olhar para trás; nunca mais poder voltar à minha forma antiga.
E ali, escondida, está você. Aliás, escondida não! Ainda lembro tanto e tantas vezes daquela visita prometida, que você só pode estar sentada espaçosamente sobre meu sofá, assoviando e batendo palmas para atrair minha atenção a cada vez que passo. Me sinto uma assassina, como se tivesse te matado no meu cotidiano, mesmo você ainda estando tão viva no meu íntimo. Mas a verdade é que nós duas mudamos, e que não faríamos mais tanto bem uma à outra.
A coisa toda é que eu não quero mais ser uma acumuladora. Preciso jogar fora o que pesa dentro de mim. E se isso implicar te jogar, jogar nossa amizade, no lixo, assim será. Tudo para poder caminhar mais leve e seguir em frente na escalada. É o que irei fazer: jogar fora todo o peso inútil.
Me entenda, cara velha amiga. Vamos seguir em frente e esquecer aquela promessa de nunca mais nos separar. Não aguento mais todos os teus quilos emocionais, e não gosto de pensar que você pode estar me esperando. Foi ótimo enquanto foi, mas te carregar seria como guardar papel de bombom na agenda, só pra lembrar como o dia foi lindo.
E eu não preciso desse tipo de lembrete. Eu sempre vou lembrar, mas só quando eu quiser.
Pílulas
Por que falar tanto da hipocrisia, se é nada mais que uma condição humana? Todos vivem a hipocrisia, e mais ainda os que falam nela e a criticam sem parar. Você que fala das pessoas hipócritas, se escabela, sente nojo dessa espécie, não gostava de Justin Bieber e agora fingi ânsias de vômito quando ouve uma de suas músicas?
Hipocrisia então, não seria mais um modo de crescer e evoluir? Ou até mesmo de querer que o outro evolua?
Como hoje existem tantas pessoas falando mal da sociedade, e essa continua do jeito que é? Não somos nós a sociedade? Não temos em nossas mãos o poder de mudá-la, mudando nossos atos e modos de agir e pensar?
sábado, 8 de setembro de 2012
Receita de Ano Novo – Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Carta para um amigo.
De tantas provações que a gente é forçado a passar na vida, a mais terrível delas é a perda de alguém.
Hoje venho aqui, não pra fazer mais uma homenagem. Okay, talvez sim. Mas também para externar tudo o que vem passando pela minha cabeça desde a segunda-feira, quando eu fiquei sabendo de algo que abalou um pouco o mundo de todos nós.
Meu amigo:
Eu acordei em uma manhã gelada e chuvosa de uma segunda-feira, nada animada para ir em uma aula nada produtiva. A escola não tem mais tanta graça desde que eu comecei a amadurecer. E eu não tenho mais ninguém que me faça ver a graça de novo.
Mas voltemos a manhã gelada e chuvosa: um dia que, desde o começo, se sabe que será totalmente sem graça. Acho que senti algo diferente, porque fiz uma coisa atípica: entrei na van e rezei. Um Pai Nosso, um Credo, duas Ave Marias (a mãezinha sempre merece mais). Pedi proteção, e que o dia fosse bom. E dormi novamente (afinal, a gente vai dormir sempre tarde nos domingos).
Fui acordada pelo Gustavo, me perguntando se poderia me dar uma notícia ruim. Eu disse que podia, pensando em uma possível falta à escola, por parte dele, naquele dia. E as coisas se desenrolaram de um jeito que eu já tinha visto muitas vezes... "Sabe o Michel?" "..." "Sei sim. Que que aconteceu?" "pois é... disseram que ele reagiu a um assalto...".
Pensei em tantas coisas aquela hora. Jurei que era brincadeira, cheguei a pensar que tu tava no hospital... Mas a notícia era a de que tu tinha falecido.
Eu ainda choro. Talvez seja fraqueza. Talvez seja o término de algo muito bom, e que eu jurava que ia durar mais. Poxa, cara! Tu ia ser o tio loucão das minhas crianças! A gente ia ter muita história pra contar!
Eu tive raiva. Primeiro de ti (pô, Michel! Que que tu tava fazendo?!), depois dos caras que fizeram isso contigo, e depois do mundo.
Fui pra escola tendo pequenos ataques de choro e angústia a cada 20 minutos, intercalados com momentos de calmaria em que eu me perguntava se tinha algo que eu poderia fazer por aqueles que eram mais próximos de ti do que eu. Depois eu lembrava de tudo, e as lágrimas me vinham novamente.
Tu tem noção de quantas vezes tu foi uma mola pra mim? De quantas vezes tu me animou só de conversar comigo, seja filosofando (eu sei como tu filosofava), seja falando besteria (idem ao anterior), tu levantava o astral de um jeito que só tu conseguia.
Mas enfim... fomos ao velório. Chegamos cedo. No caminho, relembramos tuas piadas de humor negro (sem bracinho, sem docinho!) e não podíamos não rir. Esperamos até tua chegada (tua? Será que era mesmo tu ali?) e da tua família.
Não posso deixar de te falar o quanto tu tinha uma cabeça brilhante e um coração de ouro. Tu era incrível, e não, essa não é uma das vezes que falamos bem de alguma pessoa só porque ela morreu. Nós vivíamos dizendo isso: TU É FODA! Só não sei se dizemos pra ti.
Foi terrível me despedir de ti. Foi terrível tentar confortar tua mãe quando em mim já tava doendo tanto. Foi terrível ver tanta gente ali reunida por um motivo tão bizarro. O Michel morrendo? Não é possível. O cara era indestrutível!
Engenharia Eletrônica, então? Não sabia disso. Aliás, acho que ninguém sabia disso. Engenharia, Michel? Eletrônica, de novo? Eu teria rido da tua cara. E tu também teria rido, pelo mesmo motivo.
Tu não tem noção, cara, do quanto eu te considero, e do quanto eu te adoro. A gente sofre em silêncio, quando a nossa vontade é de quebrar a cara de um filho da puta desses que faz isso com alguém que, tenho certeza, é insubstituível.
Já perdi muita gente. Mas dessa vez eu me peguei torcendo pra tu vir puxar meu pé à noite. Assim, quem sabe, eu possa falar contigo de novo.
Estou escrevendo na esperança de que, de algum lugar, alguma hora dessas, quando te sobrar um tempinho (afinal, o paraíso deve ser muito bacana, mesmo) leia, e lembre de mim, porque eu sei que tu significava mais pra mim do que eu pra ti. Aliás, com todo mundo deveria ser assim.
Era isso que eu tinha pra dizer de ti. Um cara especial, de excelência.
Enfim. Espero que tu encontre muitas vaginas perfeitas por aí, porque, afinal "É nesses momentos que tu sente que o teu pau tem valor".
E te lembra aquela vez na praça? Tudo bem que eu tava bêbada, mas se eu disse que tu ia estar na minha biografia, é porque tu vai estar. E vai mesmo.
Adeus, Michel. Agora eu sinto que "a ficha caiu" mesmo.
Tua curta vida valeu mais e foi mais proveitosa que a de muita gente que chega aos 100, por aí.
Hoje venho aqui, não pra fazer mais uma homenagem. Okay, talvez sim. Mas também para externar tudo o que vem passando pela minha cabeça desde a segunda-feira, quando eu fiquei sabendo de algo que abalou um pouco o mundo de todos nós.
Meu amigo:
Eu acordei em uma manhã gelada e chuvosa de uma segunda-feira, nada animada para ir em uma aula nada produtiva. A escola não tem mais tanta graça desde que eu comecei a amadurecer. E eu não tenho mais ninguém que me faça ver a graça de novo.
Mas voltemos a manhã gelada e chuvosa: um dia que, desde o começo, se sabe que será totalmente sem graça. Acho que senti algo diferente, porque fiz uma coisa atípica: entrei na van e rezei. Um Pai Nosso, um Credo, duas Ave Marias (a mãezinha sempre merece mais). Pedi proteção, e que o dia fosse bom. E dormi novamente (afinal, a gente vai dormir sempre tarde nos domingos).
Fui acordada pelo Gustavo, me perguntando se poderia me dar uma notícia ruim. Eu disse que podia, pensando em uma possível falta à escola, por parte dele, naquele dia. E as coisas se desenrolaram de um jeito que eu já tinha visto muitas vezes... "Sabe o Michel?" "..." "Sei sim. Que que aconteceu?" "pois é... disseram que ele reagiu a um assalto...".
Pensei em tantas coisas aquela hora. Jurei que era brincadeira, cheguei a pensar que tu tava no hospital... Mas a notícia era a de que tu tinha falecido.
Eu ainda choro. Talvez seja fraqueza. Talvez seja o término de algo muito bom, e que eu jurava que ia durar mais. Poxa, cara! Tu ia ser o tio loucão das minhas crianças! A gente ia ter muita história pra contar!
Eu tive raiva. Primeiro de ti (pô, Michel! Que que tu tava fazendo?!), depois dos caras que fizeram isso contigo, e depois do mundo.
Fui pra escola tendo pequenos ataques de choro e angústia a cada 20 minutos, intercalados com momentos de calmaria em que eu me perguntava se tinha algo que eu poderia fazer por aqueles que eram mais próximos de ti do que eu. Depois eu lembrava de tudo, e as lágrimas me vinham novamente.
Tu tem noção de quantas vezes tu foi uma mola pra mim? De quantas vezes tu me animou só de conversar comigo, seja filosofando (eu sei como tu filosofava), seja falando besteria (idem ao anterior), tu levantava o astral de um jeito que só tu conseguia.
Mas enfim... fomos ao velório. Chegamos cedo. No caminho, relembramos tuas piadas de humor negro (sem bracinho, sem docinho!) e não podíamos não rir. Esperamos até tua chegada (tua? Será que era mesmo tu ali?) e da tua família.
Não posso deixar de te falar o quanto tu tinha uma cabeça brilhante e um coração de ouro. Tu era incrível, e não, essa não é uma das vezes que falamos bem de alguma pessoa só porque ela morreu. Nós vivíamos dizendo isso: TU É FODA! Só não sei se dizemos pra ti.
Foi terrível me despedir de ti. Foi terrível tentar confortar tua mãe quando em mim já tava doendo tanto. Foi terrível ver tanta gente ali reunida por um motivo tão bizarro. O Michel morrendo? Não é possível. O cara era indestrutível!
Engenharia Eletrônica, então? Não sabia disso. Aliás, acho que ninguém sabia disso. Engenharia, Michel? Eletrônica, de novo? Eu teria rido da tua cara. E tu também teria rido, pelo mesmo motivo.
Tu não tem noção, cara, do quanto eu te considero, e do quanto eu te adoro. A gente sofre em silêncio, quando a nossa vontade é de quebrar a cara de um filho da puta desses que faz isso com alguém que, tenho certeza, é insubstituível.
Já perdi muita gente. Mas dessa vez eu me peguei torcendo pra tu vir puxar meu pé à noite. Assim, quem sabe, eu possa falar contigo de novo.
Estou escrevendo na esperança de que, de algum lugar, alguma hora dessas, quando te sobrar um tempinho (afinal, o paraíso deve ser muito bacana, mesmo) leia, e lembre de mim, porque eu sei que tu significava mais pra mim do que eu pra ti. Aliás, com todo mundo deveria ser assim.
Era isso que eu tinha pra dizer de ti. Um cara especial, de excelência.
Enfim. Espero que tu encontre muitas vaginas perfeitas por aí, porque, afinal "É nesses momentos que tu sente que o teu pau tem valor".
E te lembra aquela vez na praça? Tudo bem que eu tava bêbada, mas se eu disse que tu ia estar na minha biografia, é porque tu vai estar. E vai mesmo.
Adeus, Michel. Agora eu sinto que "a ficha caiu" mesmo.
Tua curta vida valeu mais e foi mais proveitosa que a de muita gente que chega aos 100, por aí.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Com carinho
De vez em quando, a vida e escolhas me levam a ter um olhar diferente sobre as coisas. Isso acaba por me deixar meio deprimida, mas é um bom exercício de amadurecimento.
Me utilizando da metáfora da rã no tacho de leite, quem se deixa vencer pelas dificuldades simplesmente afunda. Aquele que luta, porém, de tanto se debater transforma o leite em manteiga, consegue sair fácilmente.
Às vezes desistimos por coisas tão insignificantes, dificuldades bobas que se tornam um grande iceberg em nossa frente. Somos, a grande maioria de nós, raça humana, fúteis. Reclamamos "de barriga cheia". Nosso maior passatempo é reclamar. Atitudes para mudar, porém, raramente são tomadas...
Esse fim de semana conheci uma pessoa maravilhosa. É por ela que estou aqui, agora, escrevendo isso (no meio de uma aula, antes que minha memória e inspiração falhem). Uma mulher guerreira, se debatendo no "tacho da vida".
Filha de uma família de doze irmãos, ela luta contra cânceres (sim, no plural) desde os 35 anos. Venceu três, já. Faz hemodialise a tanto tempo que seu braço, no lugar onde são colocadas as agulhas, apresenta um grande inchaço, um "caroço" de tantas agressões da vida.
Já fez diversas cirurgias, retirou tireóide. Tem agora uma perna mais curta que a outra, por conta de um "consumo de cálcio" excessivo do organismo. A bexiga diminuiu depois das tantas radioterapias intensivas que fez. Hoje, está esperando uma cirurgia de transplante de rim.
É a esse indivíduo que dedico o texto de hoje. Melhoras, dona Vânia. O leite já está quase virando manteiga.
Me utilizando da metáfora da rã no tacho de leite, quem se deixa vencer pelas dificuldades simplesmente afunda. Aquele que luta, porém, de tanto se debater transforma o leite em manteiga, consegue sair fácilmente.
Às vezes desistimos por coisas tão insignificantes, dificuldades bobas que se tornam um grande iceberg em nossa frente. Somos, a grande maioria de nós, raça humana, fúteis. Reclamamos "de barriga cheia". Nosso maior passatempo é reclamar. Atitudes para mudar, porém, raramente são tomadas...
Esse fim de semana conheci uma pessoa maravilhosa. É por ela que estou aqui, agora, escrevendo isso (no meio de uma aula, antes que minha memória e inspiração falhem). Uma mulher guerreira, se debatendo no "tacho da vida".
Filha de uma família de doze irmãos, ela luta contra cânceres (sim, no plural) desde os 35 anos. Venceu três, já. Faz hemodialise a tanto tempo que seu braço, no lugar onde são colocadas as agulhas, apresenta um grande inchaço, um "caroço" de tantas agressões da vida.
Já fez diversas cirurgias, retirou tireóide. Tem agora uma perna mais curta que a outra, por conta de um "consumo de cálcio" excessivo do organismo. A bexiga diminuiu depois das tantas radioterapias intensivas que fez. Hoje, está esperando uma cirurgia de transplante de rim.
É a esse indivíduo que dedico o texto de hoje. Melhoras, dona Vânia. O leite já está quase virando manteiga.
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